Resumo das palestras e discussões referentes aos itens 28 e 29 das sessões do Cine Clube UMES (programação 2006/2007).
A ERA REAGAN
I. A ofensiva neoliberal
1. O neoliberalismo nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da América do Norte onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem-estar social. Seu texto de origem é “O Caminho da Servidão”, de Friedrich Hayek, escrito já em 1944. Trata-se de um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do Estado, caracterizadas como uma ameaça letal à liberdade, não somente econômica, mas também política.
2. Em 1947, enquanto as bases do “Estado de bem-estar” na Europa do pós-guerra efetivamente se construíam, não somente na Inglaterra, mas também em outros países, Hayek convocou aqueles que compartilhavam sua orientação ideológica para uma reunião na pequena estação de Mont Pèlerin, na Suíça. Entre os célebres participantes estavam não somente adversários firmes do “Estado de bem-estar” europeu, mas também inimigos férreos do New Deal norte-americano. Na seleta assistência encontravam-se Milton Friedman, Karl Popper, Lionel Robbins, Ludwig Von Mises, Walter Eupken, Walter Lipman, Michael Polanyi, Salvador de Madariaga, entre outros. Aí se fundou a Sociedade de Mont Pèlerin, uma espécie de franco-maçonaria neoliberal, altamente dedicada e organizada, com reuniões internacionais a cada dois anos. Seu propósito era combater o keynesianismo e o solidarismo reinantes e preparar as bases de um outro tipo de capitalismo, duro e livre de regras para o futuro.
3. A partir da chegada da grande crise do modelo econômico do pós-guerra, em 1973, quando todo o mundo capitalista avançado caiu numa longa e profunda recessão, combinando, pela primeira vez, baixas taxas de crescimento com altas taxas de inflação, as idéias neoliberais passaram a ganhar terreno. As raízes da crise, afirmavam Hayek e seus companheiros, estavam localizadas no poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de maneira mais geral, do movimento operário, que havia corroído as bases de acumulação capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com sua pressão parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os gastos sociais. Esses dois processos destruíram os níveis necessários de lucros das empresas e desencadearam processos inflacionários que não podiam deixar de terminar numa crise generalizada das economias de mercado. O remédio, então, era claro: manter um Estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em todos os gastos sociais e nas intervenções econômicas. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária, com a contenção dos gastos com bem-estar, e a restauração da taxa "natural" de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos. Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis, para incentivar os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava reduções de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre as rendas. Desta forma, uma nova e saudável desigualdade iria voltar a dinamizar as economias avançadas, então às voltas com uma estagflação, resultado direto dos legados combinados de Keynes e de Beveridge, ou seja, a intervenção anticíclica e a redistribuição social, as quais haviam tão desastrosamente deformado o curso normal da acumulação e do livre mercado. O crescimento retornaria quando a estabilidade monetária e os incentivos essenciais houvessem sido restituídos.
4. A hegemonia deste programa não se realizou do dia para a noite. Mas, ao final da década, em 1979, surgiu a oportunidade. Na Inglaterra, foi eleito o governo Thatcher, o primeiro regime de um país de capitalismo avançado publicamente empenhado em pôr em prática o programa neoliberal. Um ano depois, em 1980, Reagan foi eleito à presidência dos Estados Unidos. Em 1982, Khol derrotou o regime social liberal de Helmut Schimidt, na Alemanha. Em 1983, a Dinamarca, Estado modelo do bem-estar escandinavo, caiu sob o controle de uma coalizão clara de direita, o governo de Schluter. Em seguida, quase todos os países do norte da Europa ocidental, com exceção da Suécia e da Áustria, também viraram à direita. A partir daí, a onda de direitização desses anos tinha um fundo político para além da crise econômica do período.
5. O ideário do neoliberalismo havia sempre incluído, como componente central, o anticomunismo mais intransigente de todas as correntes capitalistas do pós-guerra. O novo combate contra o império do mal – a servidão humana mais completa aos olhos de Hayek – inevitavelmente fortaleceu o poder de atração do neoliberalismo político, consolidando o predomínio da nova direita na Europa e na América do Norte. Os anos 80 viram o triunfo mais ou menos incontrastado da ideologia neoliberal nesta região do capitalismo avançado.
6. Apesar de todas as novas condições institucionais criadas em favor do capital – a taxa de acumulação, ou seja, da efetiva inversão em um parque de equipamentos produtivos, não apenas não cresceu durante os anos 80, como caiu em relação a seus níveis – já médios – dos anos 70. No conjunto dos países de capitalismo avançado, as cifras são de um incremento anual de 5,5% nos anos 60, de 3,6% nos anos 70, e nada mais do que 2,9% nos anos 80. Uma curva absolutamente descendente. Cabe perguntar por que a recuperação dos lucros não levou a uma recuperação dos investimentos. Essencialmente, pode-se dizer, porque a desregulamentação financeira, que foi um elemento tão importante do programa neoliberal, criou condições muito mais propícias para a inversão especulativa do que produtiva. Durante os anos 80 aconteceu uma verdadeira explosão dos mercados de câmbio internacionais, cujas transações, puramente monetárias, acabaram por diminuir o comércio mundial de mercadorias reais. O peso de operações puramente parasitárias teve um incremento vertiginoso nestes anos.
(Trechos extraídos do artigo “Balanço do Neoliberalismo”, de Perry Anderson)
II. Reagan e a América Central
Eleito em 1980, após o hiato de cinco anos representado pela administração do democrata Jimmy Carter, Ronald Reagan - egresso, como Nixon, das entranhas do marcatismo, onde desempenhara o tristemente célebre papel de delator - retomou o “big stick” republicano e desfechou violento ataque contra a América Central, tendo como principais alvos a Nicarágua e El Salvador.
Em 1979, a Frente Sandinista havia derrubado a ditadura dos Somoza. A Frente, criada em 1961, deve seu nome ao general Augusto César Sandino, que liderara por dez anos, desde 1923, as guerrilhas contra a ocupação norte-americana do país. Em 1933, o presidente Roosevelt, recém-empossado, retirou os marines da Nicarágua. Neste mesmo ano, Anastácio Somoza, chefe da Guarda Nacional da Nicarágua, seqüestra e assassina Sandino que havia atendido a seu convite para uma “conversação de paz”. A ditadura imposta por Somoza e seus descendentes à Nicarágua era brutal e subserviente aos monopólios americanos.
Em El Salvador, a guerrilha da Frente Farabundo Marti verificara notável expansão desde o assassinato do bispo Oscar Romero pelas forças pro-ianques, durante a celebração de uma missa, em 1980. Farabundo Marti, que lutara na Nicarágua ao lado de Sandino, fundou, em 1930, o Partido Comunista de El Salvador. Foi fuzilado em 01/02/1932, durante a repressão a uma rebelião camponesa – episódio conhecido pelo nome de “La Matanza”.
Três anos após a queda de Somoza, um exército secreto, patrocinado pela CIA, conhecido como "contras", invade a Nicarágua, a partir de Honduras. Este é o tema do filme “Latino”, dirigido por Hasckel Wexler e produzido em 1985. No ano seguinte, o diretor Oliver Stone filmaria “Salvador, martírio de um povo”.
Como já fizera na Guatemala (1954) e em Cuba (1961) a ação da CIA na Nicarágua e El Salvador, na década de 80, baseou-se no aliciamento, treinamento, armamento e financiamento de mercenários.
Em 25 de outubro de 1983, tropas da 82ª divisão aerotransportada invadiram a ilha de Granada, no Caribe, após o assassinato do presidente socialista Maurice Bishop, cuja política de aproximação com Cuba vinha sofrendo fortes retaliações econômicas da parte dos EUA.
Em 1984, para reforçar a contra-revolução nicaragüense, 11 mil soldados dos EUA se espalharam por Honduras. Entre 1988 e 1989, pilotos americanos e a Guarda Nacional de Kentucky participaram de bombardeios à população civil do interior da Guatemala, sob pretexto de combater guerrilhas.
III. O escândalo Irã-Contras – 1
Quando se fala no caso Irã-Contras, automaticamente é mencionado o nome do ex-coronel Oliver North, que foi vice-diretor do Conselho Nacional de Segurança de 1981 a 1986, no governo de Ronald Reagan. Ele coordenou a execução de um esquema de venda secreta de armas norte-americanas para o Irã, com o objetivo de obter dinheiro para a guerrilha dos Contras na Nicarágua.
Na época, estavam em vigor leis votadas pelo Congresso que proibiam o governo dos EUA tanto de fornecer armas para o Irã quanto de financiar a guerrilha anti-sandinista na Nicarágua.
O desvio de dinheiro foi denunciado pelo então secretário da Justiça, Ed Meese, a 25 de novembro de 1986, e logo ficou evidente que Oliver North participara da operação. Ainda no mesmo ano, ele depôs numa Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado.
Em 1989, quando foi julgado pela Justiça Federal, North admitiu ter mentido em seus depoimentos ao Congresso. Uma corte federal o condenou a pagar multa de US$ 150 mil, três anos de liberdade condicional e prestar 1200 horas de serviços comunitários. Mas ele conseguiu anular a sentença em recurso encaminhado a instância superior.
O promotor Lawrence Walsh indiciou ainda outras 13 pessoas no caso Irã-Contras. Só quatro, de escalões inferiores, foram condenadas e cumpriram pena.
O então presidente Reagan negou, várias vezes, diante da CPI, ter tomado conhecimento de qualquer detalhe da operação. Reagan admitiu que sabia dos contatos de North com os Contras, mas assegurou que sempre advertira o tenente-coronel da necessidade de respeitar as leis
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Foi o secretário da Defesa, Caspar Weinberger, que idealizou a estratégia de desviar os lucros do comércio com o Irã para a guerrilha latina, através do Conselho de Segurança Nacional, dirigido pelo Almirante John Poindexter. North era assessor de Poindexter. Não passava de operador do esquema.
IV. O escândalo Irã-Contras – 2
The Guardian, 10/12/1986: “A equipe de North incluia (Richard) Secord; Noel Koch (vice de Armitage), então secretário Assistente no Pentágono responsável por operações especiais; George Cave, ex-chefe de estação da CIA em Teerã, e Colin Powell, assistente militar do secretário de Defesa Caspar Weinberger”.
New York Times, 16/02/1987: “Apressadamente, um dos homens mais próximos ao secretário da Defesa Weinberger, o major general Colin Powell, contornou os procedimentos escritos do ''sistema do ponto focal" e requisitou à Agência de Logística de Defesa (responsável por aquisições) que entregasse 2.008 mísseis TOW à CIA, que agiu como intermediária para a entrega ao Irã."
UPI, 27/11/1987: “Richard Armitage ocupava a posição de secretário assistente de Defesa na Administração Reagan. Estava encarregado de coordenar as operações militares secretas incluindo a operação Irã-Contra. Estava em ligação próxima com o coronel Oliver North. O seu vice e principal responsável anti-terrorista, Noel Koch, fez parte da equipe formada por Oliver North. Depois da entrega dos mísseis anti-tanque TOW ao Irã, as receitas das vendas foram depositadas em contas bancárias numeradas e o dinheiro foi usado para financiar os Contras da Nicarágua”.
Washington Post, 26/05/1989: "Com uma posição no Pentágono que o colocava acima do ramo das operações militares encobertas, Armitage estava ciente das operações de vendas de armas desde o início. Ele também estava associado ao ex-adido de segurança nacional Oliver L. North, num grupo de contra-terrorismo da Casa Branca, outra área que também teria sido um foco provável do inquérito do congresso".
Em 24 de dezembro de 1992, George Bush [pai] decretou o perdão de seis implicados no escândalo Irã-Contras, entre esses o ex-Secretário da Defesa Caspar Weinberger e o ex-embaixador dos EUA nas Honduras e no Iraque, John Negroponte. Weinberger tinha um julgamento marcado para o dia 5 de janeiro de 1993 por mentir para o Congresso sobre seu conhecimento de venda de armas para o Irã e esconder 1700 páginas de seu diário pessoal detalhando discussões com outros oficiais sobre as vendas de armas. Já que as notas de Weinberger continham referências ao conhecimento de Bush sobre os envios secretos de armas para o Irã, acredita-se que o perdão foi para evitar que Bush tivesse de se apresentar diante de um júri ou possivelmente para evitar acusações contidas nas notas de Weinberger.
George Bush [filho] nomeou o almirante Poindexter para diretor do Information Awarness Office do Pentágono,onde ele criou o TIA (Total Information Awareness), programa que visa vasculhar a vida dos 290 milhões de habitantes dos EUA para "evitar ataques terroristas".
Negroponte é o atual secretário-adjunto de Condoleezza Rice.
V. Reagan e o terrorismo – 1
Depois da derrota americana no Vietnã, passou a existir uma forte oposição a intervenções internacionais dos EUA. A resposta de [Henry] Kissinger [ex-secretário de Estado dos EUA, 1973-77] ao novo contexto internacional foi recorrer à guerra por procuração. Inicialmente, isso ficou evidente no mesmo ano em que a Guerra do Vietnã chegou ao fim, 1975.
Trata-se do ano em que o poder colonial português entrou em colapso. E o centro de gravidade da Guerra Fria se moveu para a África meridional. Incapaz de intervir diretamente, a América procurou grupos que pudessem fazê-lo em seu lugar. Na transição que levou à independência de Angola, Kissinger deu uma procuração informal à África do Sul. Mas a intervenção ficou desacreditada quando a notícia se tornou pública.
Essa estratégia ganhou, posteriormente, valor ideológico, tornando-se um imperativo religioso contra o "império do mal" [URSS] para o governo Reagan. Se observarmos sua política externa, veremos que Reagan encorajou e apoiou, na Guerra Fria, redes e movimentos terroristas não-estatais da África meridional à América Central e à Ásia central.
Essa história teve seu ápice com o aparecimento de redes terroristas islâmicas ligadas à guerra santa afegã contra os soviéticos.
O governo Reagan chamou sua aliança com a África do Sul do apartheid de "engajamento construtivo". Tratava-se de um guarda-chuva político sob o qual o governo segregacionista da África do Sul criou e sustentou o primeiro movimento genuinamente terrorista da África, que atacava sobretudo alvos civis com o objetivo de espalhar o medo. Esse movimento puramente terrorista se chamava Renamo [Resistência Nacional de Moçambique].
Ao mesmo tempo, a América de Reagan estava envolvida na criação de um movimento terrorista na Nicarágua.
O elo entre ele e os chamados "Contras" da Nicarágua era uma reprodução do existente entre o governo segregacionista da África do Sul e a Renamo. E os métodos de ambos eram parecidos.
O terceiro e mais importante caso de guerra por procuração ocorreu por conta da criação de uma guerra santa internacional contra a intervenção soviética no Afeganistão. Reagan não estava preocupado com o nacionalismo afegão, no entanto procurava abertamente extremistas islâmicos internacionais que estivessem interessados em travar a guerra até seu final, não concordassem com a realização de negociações e quisessem só "sangrar os brancos soviéticos".
Indubitavelmente, a rede de terror que Bush busca identificar e destruir hoje é exatamente a conseqüência direta da "rede de libertadores" financiada pelo governo Reagan na década de 80. (Mahmood Mamdani).
VI. Reagan e o terrorismo – 2
Em abril de 1986, sob o pretexto de que o governo da Líbia estimulava o terrorismo internacional, Reagan desencadeou um ataque da aviação americana contra Trípoli e Benghazi, matando 130 pessoas, entre as quais a filha mais nova do presidente Muammar Kadafi.
Em 1988, condecorou o líder da Unita, Jonas Savimbi, como "defensor da liberdade". Só no governo Clinton Washington reconheceu oficialmente o governo do MPLA em Angola.
Savimbi morreu, em 22/02/2002, como um pária, encurralado pelas tropas do governo, chamado até mesmo pela ONU de “terrorista e assassino de civis inocentes”.
VII. Guerra nas Estrelas
Em março de 1983, Ronald Reagan investiria contra a estrutura de segurança nuclear global, instituída pelo governo Nixon e baseada no Tratado sobre Mísseis Antibalísticos de 1971 (ABM). Lançou então a Iniciativa de Defesa Estratégica (SDI), também conhecida como “Guerra nas Estrelas”, programa de pesquisa e de desenvolvimento visando a criação de um escudo antibalístico terrestre e espacial.
O tratado ABM havia banido sistemas nacionais de defesa contra mísseis e era destinado a impedir uma maior escalada na corrida armamentista entre os dois países. Por esse tratado, os EUA e a URSS concordaram em limitar os sistemas de defesa contra mísseis a dois locais por país, com cem interceptadores cada. O número de locais foi reduzido para um em 1974. Os EUA escolheram seu local em Grand Forks, Dakota do Norte, mas o fecharam em 1976.
O Tratado ABM baseava-se na idéia de tornar suicida um primeiro ataque nuclear ao garantir que o outro lado fosse capaz de revidar. Sua finalidade era impedir que as superpotências se tornassem invulneráveis.
A decisão norte-americana de construir um escudo antimísseis, tendo em vista alcançar essa invulnerabilidade, era uma decisão de denúncia unilateral do Tratado ABM. A finalidade principal desse escudo não era convencer os “Estados fora-da-lei” a não tentar chantagear os EUA com um ou dois foguetes com ogiva nuclear. Na realidade, ele visava subtrair de qualquer potência a capacidade de ataque nuclear (de primeiro ou segundo golpe) contra o território continental norte-americano - e, por extensão, dotar os EUA das salvaguardas para agir impunemente em um conflito nuclear.
Paralelamente ao anúncio da SDI, a OTAN estacionou na Europa mais de meio milhar de ogivas nucleares tácticas, veiculadas por mísseis de cruzeiro (GLCM) e mísseis balísticos Pershing II.
VIII. A queda do socialismo no leste europeu
Sob pressão da ofensiva imperialista e da chantagem nuclear desencadeadas pelo governo Reagan, a URSS e os países do leste europeu, que desde meados da década de 50 vinham se enfraquecendo pela crescente introdução de mecanismos capitalistas na sua economia, não suportaram o embate e começaram a ruír.
IX. A longa intimidade dos Bush com Félix Rodriguez e Posada Carriles – 4
Em 1981, Reagan e Bush ocuparam a Casa Branca. Félix cumpriu várias missões às ordens da CIA.
Em 1982, o diretor da CIA, William Casey, lançou a operação Black Eagle visando “ampliar” o papel dos EUA na América Central. Recrutaram mercenários para se juntar à contra-revolução nicaragüense, seguindo as orientações de George Bush.
Na Flórida, Jeb Bush, filho de George, virou o laço entre a máfia cubano-americana, os “contras” e os nicaragüenses emigrados. Jeb confraterniza com o mafioso cubano-americano Leonel Martínez extremista da direita e narcotraficante associado ao “dissidente” nicaragüense e agente da CIA, Eden Pastora.
Em agosto, George Bush nomeou Donald Gregg conselheiro para a segurança nacional. Gregg ordenou a Félix missões de apoio à “Contra” nicaragüense.
Rodríguez organizou, juntamente com José Basulto (hoje líder da Irmãos para o Resgate), o que se qualificou posteriormente como o maior desvio de verbas do seguro social na história dos EUA. Com a cumplicidade de um parceiro de Jeb Bush, o cubano-americano Miguel Recarey, utilizou boa parte de um subsídio federal destinado a serviços públicos de saúde de Miami para organizar ilegalmente serviços hospitalares para os mercenários da ‘Contra’ nicaragüense.
Em outubro de 1984, Gerald Latchinian, vice-diretor de Giro Aviation, uma empresa aérea da CIA manipulada por Félix Rodríguez, foi detido pela importação de US$ 10 milhões de cocaína, para financiar supostamente o assassinato do presidente hondurenho Roberto Suazo Córdova. Latchinian afirmou que a operação era obra da CIA.
Nos fins de 1984, Donald Gregg apresentou o coronel Oliver North, chefe das operações na América Central, a Félix Rodríguez. Fala-se que Gregg tem na mesa de trabalho uma foto autografada de Félix Rodríguez.
Rodríguez encontrou-se com Bush em 22 de janeiro de 1985. Em junho, reuniu-se com Gregg e o coronel Steele, responsável pelas provisões aos “contras”.
Reapareceu em El Salvador, como responsável pelas operações aéreas na base de Ilopango. Nessa altura, seu pseudônimo era Max Gómez.
A partir desse momento, também o ex-membro da Operação 40 encarregou-se da coordenação das operações de transporte de volumes enormes de cocaína da Colômbia para os Estados Unidos.
A CIA ofereceu-lhe como ajudante principal seu antigo parceiro o terrorista Luis Posada Carriles, autor do atentado criminoso ao avião da Cubana de Aviação, que recentemente fugira de um cárcere venezuelano disfarçado de sacerdote, com o auxílio da própria CIA e da Fundação Cubano-Americana (FNCA). O apelido de Posada era Ramón Medina.
Um ex-agente da DEA (agência federal antidroga), Celerino Castillo III, falou mais tarde, perante o comitê de inteligência da Câmara, como seus informantes descobriram na base de Ilopango armazéns de drogas, armas e dinheiro. Também como repararam em que muitos dos pilotos dos “contras” estavam fichados como narcotraficantes pela DEA.
“Descobri que outras agências ‘coabitavam com o inimigo’”, comentou Castillo numa entrevista ao Dallas Morning News.
Em 18 de janeiro de 1985, Rodríguez reuniu-se com Roberto Milán-Rodríguez, expert em lavagem de dinheiro do Cartel de Medellín, que se gabava de ter “lavado” mais de US$ 1,5 bilhão para sua organização. Milán-Rodríguez entregou-lhe US$ 10 milhões, destinados aos “contras” nicaragüenses.
Em 8 de maio de 1985, o gabinete de Bush foi alertado por Rodríguez a respeito de um aparelho C-123 derrubado pelas forças armadas da Nicarágua. O piloto, Eugene Hassenfus, confessou que trabalhava para a CIA, às ordens de Max Gómez (Félix Rodríguez) e Ramón Medina (Luis Posada Carriles).
Em dezembro de 1985, George Bush recebeu aberta e descaradamente seu amigo Félix Rodríguez, torturador e assassino, larápio e narcotraficante na Casa Branca. Com fotografia oficial e todo o protocolo. Rodríguez participou dos festejos de Natal. Bush apresentou-o como um amigo de longa data, dele e de Gregg.
Alguns dias depois, Rodríguez se reuniu no gabinete de Bush com o coronel Sam Watson, representante pessoal de Gregg em El Salvador, e com o coronel Steele para discutir acerca da estratégia de luta dos “contras”.
No decurso de 1986, o vice-presidente Bush viajou oficialmente para Honduras a fim de prestar ajuda aos “contras”.
Em maio, Rodríguez reuniu-se nesta ocasião com Bush, Gregg e Oliver North, em Washington.
Em setembro, apresentou-se ante Bush e Donald Gregg para fazer queixa a respeito da qualidade das armas enviadas por Richard Secord. Gregg ordenou que as armas fossem compradas diretamente das “fontes” do próprio Rodríguez.
Em outubro desse mesmo ano, o general Singlaub fez queixa dos “contatos diários” de Rodríguez com o gabinete de Bush, temendo “danos para o presidente Reagan e o Partido Republicano”.
Como é óbvio, por trás de toda a operação, estava a sombra de Otto Reich, chefe do Escritório de Diplomacia Pública, encarregado de desinformar o público norte-americano. Reich, ao eclodir o escândalo “Irã-Contras”, fora logo indicado embaixador na Venezuela, onde se encarregara da libertação e da “reabilitação” do cúmplice de Posada, o pediatra assassino Orlando Bosch.
Em 1988, uma comissão do Senado dirigida pelo senador John Kerry investigou a escandalosa operação de tráfico de entorpecentes e de armas, envolvendo Oliver North, Donald Gregg, John Poindexter, Elliot Abrams, Otto Reich, Richard Armitage, John Negroponte, Mitch Daniels e demais cúmplices de George Bush na guerra imperial contra a Nicarágua.
Sem esquecer o cúmplice secreto, o agente Félix Rodríguez, que também teria de depor, ao que parece, bem arrumado: “Você tem ganho muito respeito no processo”, comentou enigmaticamente George Bush a ele numa mensagem pessoal escrita nas vésperas do Natal.