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Americanos dizem que iam vender crianças a famílias piedosas

Assim como o governo dos EUA considerou que não precisava pedir licença ao governo do Haiti, à ONU, ou a quem quer que fosse para entrar com 20 mil marines e paraquedistas, apoiados pelo porta-aviões nuclear Carl Vinson, no país caribenho atingido por um terremoto, dez débeis mentais de uma obscura “igreja evangélica” de Idaho acharam que, pelo mesmo critério “humanitário”, podiam chegar lá, catar três dezenas de crianças e conduzi-las aos EUA, onde seriam negociadas a U$ 10 mil a cabeça.
Mas mesmo com o país em destroços, o Haiti continua sendo uma nação soberana, e para surpresa deles, foram detidos pela polícia haitiana no principal ponto de passagem para a vizinha República Dominicana, Malpasse, na noite de sexta-feira, dia 29 de janeiro. Receberam voz de prisão por seqüestro e tráfico de menores, e as 33 crianças foram salvas.
Naturalmente, os dez consideraram uma tremenda arbitrariedade não poderem entrar na terra dos outros e sair levando o que quisessem, movidos por fins tão piedosos. Mas não se dizia que o Haiti estava arrasado, uma terra de ninguém, casa da mãe Joana? É, arrasado, mas não terra de ninguém. Terra dos haitianos. Aliás, a “argumentação” do advogado dos americanos, Jorge Puello, em entrevista por telefone da República Domini- cana, foi que “não há governo no Haiti”.
No afã de praticar o bem e a compaixão, os dez não haviam se dado ao trabalho de iniciar qualquer processo regular de adoção das crianças, que têm entre sete meses e 12 anos. Ao serem presos, identificaram-se como integrantes de uma tal “New Life Children’s Refuge”, ligada a um culto de Idaho. Disseram, ainda, as crianças tinham vindo de “orfanatos que desabaram” ou entregues por “parentes distantes”.
Após serem libertadas, as crianças foram encaminhadas à entidade austríaca “SOS Aldeia das Crianças, cujo diretor, Georg Willeit, como registrou a NBC News, denunciou que “elas seriam vendidas - eu quero deixar isso claro - cada uma por US$ 10.000”. “Foi o que a polícia nos disse. Todas as crianças estavam desesperadas de fome e sede. Todas em más condições”. “Uma das crianças mais velhas nos disse, “Eu não sou órfã. Ainda tenho pais”, acrescentou Willeit. “Ela pensava que estava indo em férias de verão dadas por gente amiga da América e da República Dominicana”.
Ao ser informado do detalhe humanitário dos “US$ 10 mil por criança”, o ministro haitiano para Assuntos Sociais, Yves Cristalin, indignou-se: “Isso não é adoção, é roubo de crianças”. Ele acrescentou que o fato “está absolutamente fora da lei e serão julgados aqui”. “Nenhuma criança haitiana pode deixar o Haiti sem uma autorização regular e estas pessoas não tinham autorizações”, assinalou.
Já a embaixada norte-americana em Porto Príncipe declarou que está prestando assessoria aos delinqüentes de Idaho “de todas as maneiras possíveis”. As pressões já começaram, para que os dez sejam julgados nos EUA e não no Haiti, sob o pretexto de que quase todos os prédios do sistema judiciário haitiano foram destruídos pelo terremoto.
Depois do sismo de 12 de janeiro, o governo haitiano bloqueou grande parte das adoções para evitar que crianças fossem levadas para fora do país de modo irregular, sob risco de serem vendidas a redes de prostituição infantil, de tráfico de órgãos ou para trabalho em serviços insalubres. Medida apoiada pela organização da ONU para a infância, a Unicef.
A ministra de Comunicação e Cultura, Marie Lau-rence Lassec, ressaltou que o Haiti tem seu Sistema Judiciário e seus procedimentos e pediu respeito às normas do país. Ela confirmou que estão sendo realizadas investigações, pela Direção de Assuntos Sociais, para determinar quais crianças têm pais ou familiares vivos. As autoridades indicaram que algumas crianças “disseram que seus pais estão vivos e alguns deram endereço e números de telefone”.
Pais e parentes localizados pela agência France Presse na localidade de Callebas, perto da capital, relataram que os “missionários” disseram que as crianças iriam para um abrigo no país vizinho e poderiam ser visitadas. “Ninguém seria levado para adoção”. Os americanos até pegaram “informações de contato de todas as famílias”.

O bravo povo do Haiti e a sua incessante luta pela liberdade
Às vezes, um detalhe revela muito sobre o conjunto de um quadro. O professor haitiano Henry Boisrolin, em entrevista na Argentina (onde leciona na Universidade de Córdoba), referiu-se a que o Haiti, até o terremoto de 12 de janeiro, era o maior exportador de bolas de beisebol para os EUA, apesar de ninguém no Haiti se interessar por beisebol - e quase ninguém nem ao menos saber o que é esse jogo. A bola de beisebol, como se sabe, é um produto altamente sofisticado: uma rolha esférica coberta por couro. Como diz Boisrolin: “O Haiti não é um país pobre, é um país empobrecido”.
Como disse o jurista norte-americano William P. Quigley, defensor das vítimas do Katrina contra o governo Bush, “as corporações dos EUA têm, por anos, com a elite haitiana, dirigido estabelecimentos de escravização com dezenas de milhares de haitianos ganhando menos do que US$ 2 por dia”.
O que é ainda menos do que o salário mínimo legal, o equivalente a US$ 3,75 ao dia, ou, mais exatamente, US$ 0,375 por hora, pois a jornada de trabalho mínima é de 10 horas - e esqueçamos, aqui, coisas a que estamos acostumados, como férias, descanso semanal remunerado, etc., etc. Isso não existe nas “indústrias” que fornecem às multinacionais americanas no Haiti (nem mesmo, como observou Michael Moore, naquelas que fazem enternecedores bonecos do Mickey Mouse para a Disney).
Um professor de economia da Columbia University, de Nova Iorque, que esteve em um desses estabelecimentos de escravização, assim o descreveu: “A fábrica é quente, vagamente iluminada, superlotada de gente. O ar é pesado pela poeira e pela lanugem que solta dos tecidos. Não há nenhuma ventilação de que se possa falar. Pilhas de sobras de pijamas, vestidos, saias, entopem cada corredor e cada canto. Os trabalhadores têm caras tristes, cansadas. Eles curvam-se por cima de máquinas de costura antiquadas, algumas com mais de 20 anos, costurando vestidos ‘Kelly Reed’ para serem vendidos na Kmart, e outros produtos para lojas dos Estados Unidos. Vários trabalhadores informaram que tinham trabalhado sete domingos seguidos – em outras palavras, mais de 50 dias diretos, sem um dia de folga, mais de 70 horas por semana - durante a estação mais quente do ano. Perguntado se este horário criou problemas para os empregados ou a fábrica no conjunto, o gerente, Raymond DuPoux, disse que ‘eu é que tenho problemas, porque não posso ir à praia. Portanto, tenho problemas com minha esposa’”. (Eric Verhoogen, “The U.S./Haiti Connection - Rich Companies, Poor Workers”).
Sobre esse “gerente”, como disse o presidente Aristide ao filósofo canadense Peter Hallward, há aqueles, no Haiti, que “sentem-se em dívida de gratidão com um patrão, um chefe. O chefe é americano, um americano branco; e você é preto. Não subestime o complexo de inferioridade que ainda tão frequentemente condiciona essas relações. Você é preto, mas às vezes você chega a se sentir mais branco do que o branco, se você está disposto a ajoelhar-se na frente dos brancos. Isso é um legado psicológico da escravidão” (Peter Hallward, “An Interview with Jean-Bertrand Aristide”, London Review of Books, fev./2007).
Realmente, feitores e capitães-do-mato não são fenômenos raros. Menos ainda naquela minúscula elite haitiana que apoiou Papa Doc durante décadas.
O cineasta norte-americano Kevin Pina, em seu artigo “The people do not buy liberty and democracy at the market” (“O povo não compra liberdade e democracia no mercado” - a frase é do presidente Jean-Bertrand Aristide), refere-se à aprovação, debaixo da pressão das multinacionais, do salário-mínimo de US$ 3,75 por dia como “o ato final de retorno oficial do Haiti ao neoliberalismo”. A rigor, esse salário passou a ser o máximo, e não o mínimo, para os trabalhadores haitianos. O motivo é que o salário por peça foi deixado à solta – logo, ninguém consegue ganhar nem mesmo o salário mínimo, pois as empresas o burlam através desse pagamento por peça. No primeiro mandato de Aristide, no mesmo decreto em que aumentou o salário mínimo em 140%, o presidente determinou que o salário por peça teria que corresponder, pelo menos, ao salário mínimo. Ou seja, tinha feito com que o mínimo fosse realmente o mínimo.
Kevin Pina é autor de uma série de impressionantes documentários sobre o Haiti (onde morou, de 1999 a 2006) e, especialmente, sobre a deposição do presidente Aristide, em 2004, pela invasão das tropas dos EUA. No ano anterior, Pina denunciara que o governo americano estava bancando mercenários para derrubar Aristide (V. “Is the US Funding Haitian Contras?”, The Black Commentator, 03/04/2003). Estava certo.
Como é sabido, após a sua primeira deposição, em 1991, e sua volta ao Haiti, em 1994, Aristide cedeu em parte às pressões econômicas norte-americanas. Mas, na medida em que tornou-se patente o desastre, recusou-se a prosseguir no que percebia como a devastação de seu país - e de seu povo.
Como diz Pina, “que o movimento político Lavalas [o partido de Aristide] opunha-se ao modelo econômico neoliberal que está se desenrolando atualmente no Haiti, é fora de dúvida. A insistência do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento em ajustes estruturais que incluíam a eliminação das tarifas de importação e exportação, a liquidação de empreendimentos e empresas estatais, um salário mínimo baixo e uma confiança obsessiva no setor privado como o motor do desenvolvimento econômico foi chamado ‘o plano da morte’.”
E ele continua:
“O principal obstáculo ao plano das instituições financeiras internacionais para o Haiti era a própria democracia, na forma do movimento Lavalas, que representava os interesses da maioria dos pobres, e o presidente que eles elegeram duas vezes, Jean-Bertrand Aristide. O governo recusou a privatização de empresas-chave, como a Companhia Telefônica (Teleco) e a companhia de eletricidade (EDH), e enquanto as instituições financeiras internacionais também insistiam em que os programas sociais fossem cortados, o partido Fanmi Lavalas usava os lucros desses empreendimentos estatais para investir em um programa de alfabetização universal e fornecer milhões de refeições subsidiadas aos pobres. Pela primeira vez na história, o Haiti teve uma rede de seguridade que protegia contra a fome e a subnutrição generalizadas. Passando por cima das objeções das instituições financeiras internacionais e da elite econômica predatória do Haiti, a força de trabalho com pagamento mais baixo do hemisfério teve o salário mínimo duplicado duas vezes, no primeiro e no segundo mandato de Aristide. Não por coincidência, ambos os mandatos foram interrompidos por um golpe.”
O próprio Arisitide não era, no início, um adversário da privatização. Nas suas próprias palavras: “Quando eles [os americanos] insistiram, via FMI e outras instituições financeiras internacionais, na privatização das empresas estatais, eu estava, em princípio, preparado para concordar – mas eu recusei simplesmente entregá-las, incondicionalmente, a investidores privados. Mais que uma ilimitada privatização, eu estava preparado para concordar com a democratização dessas empresas, de forma que algo dos lucros de uma fábrica ou companhia pudesse ir para as pessoas que trabalhavam nela, ser investido em escolas próximas ou clínicas de saúde, para que os filhos dos trabalhadores tivessem algum benefício” (entrevista a Peter Hallward).
Mas isso era completamente insuficiente para os EUA. Eles queriam transformar o país num campo de trabalho escravo, com alguns feitores haitianos.
Assim, quais são as “empresas haitianas”? Aqui estão alguns exemplos, colhidos por Eric Verhoogen:
- Seamfast Manufacturing - produz vestidos para as redes norte-americanas Kmart e J.C. Penney.
- Chancerelles S.A. - subsidiária da Fine Form, de Nova Iorque, produz sutiãs e cuecas para a Elsie Undergarments, da Flórida.
- National Sewing Contractors - produz pijamas para a Disney e roupas de meninas para a Popsicle Playwear, de Nova Iorque.
- Excel Apparel Exports - produz roupas íntimas femininas para a Hanes, divisão da Sara Lee Corp., vendidas pelo Wal-Mart e pela rede Dillard Department Stores, com sede em Little Rock, Arkansas. Observação de Verhoogen: “Antes do presidente Aristide aumentar o salário mínimo, a cota diária de um trabalhador desta empresa era 360 peças por dia. Agora [depois da deposição do presidente], a cota passou para 840 peças por dia. Os trabalhadores não têm o direito de reclamar do ritmo de trabalho; eles não têm nem mesmo o direito de falar um com o outro”.
- Alpha Sewing - produz luvas para a Ansell Edmont of Coshocton, Ohio, filial da Ansell International of Lilburn, Geórgia.
Kevin Pina retrata vividamente - e tristemente - a situação após o golpe de 2004:
“Em todas as partes o movimento Lavalas e os pobres continuaram a manifestar-se contra o golpe, exigindo justiça e que fosse permitido a Aristide voltar ao Haiti. Seus líderes desapareceram, como Lovinsky Pierre-Antoine, no dia 12 de agosto de 2007, ou apodrecem na prisão, como Ronald Dauphin, ou sucumbiram às torturas, como o padre Gerard Jean-Juste no dia 27 de Maio de 2009.”
Um dos documentários de Pina é sobre o funeral do padre Gerard Jean-Juste. Milhares de pessoas compareceram – e enfrentaram uma chuva de balas.
William Quigley, professor de Direito da Loyola University New Orleans, após o terremoto, propôs que os EUA pagassem a sua dívida com o Haiti. Pedimos licença ao leitor para uma citação mais extensa.
Quigley lembra que “há mais de 200 anos os EUA têm se esforçado para quebrar o Haiti. Nós devemos ao Haiti. Não é caridade. Nós devemos ao Haiti como uma questão de justiça. Reparações. E não os US$ 100 milhões prometidos pelo presidente Obama - isso é dinheiro de Powerball [loteria americana com prêmios que vão além de US$ 300 milhões]. Os EUA devem Bilhões - com B maiúsculo - ao Haiti. Os EUA usaram o Haiti como uma ‘plantation’. Os EUA ajudaram a sangrar o país economicamente desde que ele se libertou, repetidamente invadiram o país, apoiaram ditadores que abusaram das pessoas, usaram o país como alvo de dumping para nossa própria vantagem econômica, arruinaram suas estradas e agricultura, e derrubaram as autoridades eleitas pelo povo. Os EUA até usaram o Haiti como os velhos latifundiários das ‘plantations’ [isto é, os senhores de escravos], baixando ali para diversão sexual.”
Em seguida, Quigley faz um resumo, uma “breve história” do Haiti - e, particularmente, das relações entre os EUA e o Haiti:
“Em 1804, quando o Haiti conquistou sua liberdade da França, na primeira revolução de escravos bem sucedida no mundo, os Estados Unidos recusaram-se a reconhecer o país. Os EUA continuaram se recusando a reconhecer o Haiti por mais 60 anos. Por quê? Porque os EUA continuavam a escravizar milhões de seus próprios cidadãos e temiam que, se reconhecessem o Haiti, encorajariam a revolução dos escravos nos EUA.
“Depois da revolução de 1804, o Haiti foi alvo, pela França e pelos EUA, de um mutilante embargo econômico. As sanções americanas duraram até 1863. A França, enfim, usou seu poder militar para forçar o Haiti a pagar indenizações pelos escravos libertados. As indenizações foram de 150 milhões de francos. (A França vendeu todo o território da Louisiana aos EUA por 80 milhões de francos!).
“O Haiti foi forçado a tomar dinheiro emprestado nos bancos da França e dos EUA para pagar indenizações à França. Um grande empréstimo aos EUA foi feito em 1947 para quitar a dívida com os franceses. Qual o valor atual do dinheiro que o Haiti foi forçado a pagar aos bancos franceses e dos EUA? Mais de 20 Bilhões – com B maiúsculo - de dólares.
“Os EUA ocuparam e governaram o Haiti pela força de 1915 a 1934. O presidente Woodrow Wilson enviou tropas para invadi-lo em 1915. As revoltas dos haitianos foram esmagadas pelos militares americanos – que mataram, somente em um confronto, mais de 2.000 haitianos. Nos dezenove anos seguintes, os EUA controlaram as alfândegas do Haiti, cobraram impostos e mandaram em muitas das instituições governamentais. Quantos bilhões foram sugados pelos EUA durante esses 19 anos?
“De 1957 a 1986, o Haiti foi forçado a viver sob os ditadores sustentados pelos EUA, ‘Papa Doc’ e ‘Baby Doc’ Duvalier. Os EUA apoiaram econômica e militarmente esses ditadores porque eles faziam o que os EUA queriam e eram politicamente ‘anticomunistas’ – o que agora se traduz como contra os direitos humanos de seu povo. Duvalier roubou milhões do Haiti e contraiu uma dívida de centenas de milhões, que o Haiti ainda deve. Dez mil haitianos perderam suas vidas. As estimativas são de que o Haiti deve US$ 1,3 bilhão de dívida externa e que 40% dessa dívida foi contraída pelos Duvaliers, sustentados pelos EUA.
“Trinta anos atrás, o Haiti não importava arroz. Hoje, o Haiti importa quase todo o seu arroz. Ainda que o Haiti tenha sido a florescente capital do açúcar do Caribe, agora também importa açúcar. Por quê? Os EUA e as instituições financeiras mundiais dominadas pelos EUA – o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial – forçaram o Haiti a abrir os seus mercados para o mundo. Então, os EUA promoveram o dumping no Haiti com milhões de toneladas de arroz e açúcar americano a preço subsidiado – destruindo os agricultores e levando à ruína a agricultura haitiana. Ao arruinar a agricultura haitiana, os EUA forçaram o Haiti a tornar-se o terceiro maior mercado mundial do arroz americano. Bom para os fazendeiros americanos, mau para o Haiti.
“Em 2002, os EUA bloquearam centenas de milhões de dólares em empréstimos ao Haiti que seriam utilizados, entre outros projetos públicos como educação, para estradas. São essas as mesmas estradas que agora as equipes de socorro têm tido tanta dificuldade de percorrer!
“Em 2004, os EUA outra vez destruíram a democracia no Haiti, quando apoiaram o golpe contra o presidente Aristide, eleito pelo Haiti” (Bill Quigley, “Why the US Owes Haiti Billions: The Briefest History”, Countercurrents, 17/01/2010).
Para um breve resumo, faltaria acrescentar o bloqueio americano aos recursos para a água, denunciado pelo Robert F. Kennedy Memorial Center:
“Além de ser a mais pobre nação do Hemisfério Ocidental, o Haiti tem também a pior água no mundo, estando em último lugar no ranking do Water Poverty Index. O Robert F. Kennedy Memorial Center divulgou documentos do Departamento do Tesouro dos EUA, de 4 de agosto de 2008, expondo ações politicamente motivadas pelas quais foram bloqueados empréstimos de US$ 146 milhões que o Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID) aprovou para o Haiti. O BID aprovou os empréstimos em julho de 1998, incluindo US$ 54 milhões para projetos urgentes de saneamento e necessidade de água. Entretanto, os documentos mostram que o BID e o staff do Departamento do Tesouro dos EUA buscaram meios de amarrar a liberação dos empréstimos a condições políticas que os líderes dos EUA queriam que o governo haitiano cumprisse. Esta intervenção foi uma violação direta da carta do BID” (V. Project Censored, “US Repression of Haiti Continues” e HP, 15/01/2010).
O Robert F. Kennedy Memorial Center enfatizou que “a água é a principal causa de mortalidade infantil e doenças nas crianças. O Haiti agora tem a mais alta taxa de mortalidade infantil do Hemisfério Ocidental [e] mais da metade de todas as mortes no Haiti foram devidas a doenças gastro-intestinais transmitidas através da água”.
Em artigo publicado em 1996 na revista Brecha, de Montevidéu, Eduardo Galeano, o autor de “As Veias Abertas da América Latina”, conta algumas histórias exemplares sobre o Haiti:
“Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhes, em Port-au-Prince, qual é o problema:
“- Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.
“E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.
“Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do CitiBank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações a estrangeiros. Então, Robert Lansing, secretário de Estado [do governo Wilson], justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem ‘uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização’. Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: ‘Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses’”.
Mas, como ressalta Quigley, “o povo haitiano tem resistido ao poder econômico e militar dos EUA e de outros desde a sua independência. (....) É tempo da população americana se juntar aos haitianos e inverter o curso das relações EUA-Haiti. Esta breve história mostra porque é que os EUA devem Bilhões – com B maiúsculo - ao Haiti. A atual crise é uma oportunidade para a população americana tomar consciência da história do nosso país no que se refere ao domínio do Haiti e dar uma resposta deveras justa”.
O que demonstra que, além de sua bravura, o povo haitiano tem amigos até mesmo nos EUA - e entre os brancos dos EUA, como Quigley. É verdade que os haitianos já sabiam disso. Até porque, até hoje não teve horas que não fossem difíceis. Portanto, sabe reconhecer os amigos. E, sobretudo, sabe reconhecer os inimigos. (C.L.)

Haitianos exigem retorno de Aristide pela unidade do país
Maryse Narcisse, presidente do partido Famni Lavalas destacou o anseio dos haitianos pela volta de Jean Bertrand Aristide, que após o terremoto declarou estar disposto a retornar e participar dos esforços de resgate dos atingidos pelo terremoto e pela reconstrução do país. Para ela e demais dirigentes do Lavalas, assim como apoiadores da soberania para o Haiti, a volta de Aristide é fundamental para que haja a necessária unidade, para o país possa se reerguer.
Falando sobre o partido do qual faz parte do presidente Aristide, deposto por tropas invasoras norte-americanas que o exilaram a força mesmo após ter obtido 92% dos votos na eleição presidencial de 2004, Narcisse, ex-ministra do governo de Aristide ressaltou: “Estamos no país todo. O nosso é o partido da maioria”.
Agradecendo o apoio internacional a seu país, Narcisse declarou que é necessário um cronograma para a retirada das tropas estrangeiras no país “que não podem ficar aqui para sempre” e acrescentou: “Precisamos de solidariedade internacional, mas tem que haver dignidade para nós”.
Em acordo com a solução apontada pelo Lava-las, o articulista Kevin Pina, da entidade norte-americana Haiti Infor-mation Project ressaltou a necessidade da volta de Aristide para a unificação do país: “Os EUA e a comunidade internacional devem se colocar de lado e findar com seu papel na manutenção do Sr. Aristide fora do Haiti onde ele é mais necessário do que nunca”. Para ele é hora de superar políticas que dividem a nação: “Não poderia haver maior símbolo de esperança e unidade no Haiti, exatamente agora, do que a permissão do seu retorno do exílio na África do Sul”. Abaixo reproduzimos a na íntegra a matéria de Pina.
Nos EUA, a solidariedade, a volta de Aristide e a saída imediata dos cerca de 20 mil soldados que invadiram o Haiti usando o terremoto e a “ajuda” como pretexto, foi exigida em manifestações convo-cadas por entidades como o IACenter, presidida pelo ex-procurador geral, Ramsey Clark, a Answer e o Haiti Action Com-mittee, ocorridas em Nova Iorque, Los Ange-les, San Francisco e outras vinte cidades do país.

Não cabe aos EUA interferir na segurança do Haiti, afirma ONU
A segurança e estabilização do Haiti seguem sob responsabilidade da força de paz, afirmou Edmond Mulet, o novo chefe da Minustah (a Missão da ONU), acrescentando que, conforme acordo assinado com Washington, cabe aos EUA apenas “a ajuda na assistência humanitária” às vítimas do terremoto. Ao dar essa declaração, em teleconferência de imprensa em Porto Príncipe, Mulet não se fez de rogado para balizar a intervenção dos EUA no Haiti com 20.000 marines e paraquedistas – mais do dobro da força da ONU. Tal presença, assinalou o diplomata, “é temporária” e “limitada”, e a tropa dos EUA nada terá a fazer no Haiti “na fase de reconstrução”.
Na verdade, a presença desses 20.000 soldados dos EUA viola o próprio acordo assinado pelo embaixador dos EUA, Kenneth Merten, por serem tropas de assalto, treinadas para matar, mutilar, estuprar e torturar, e não para dar “ajuda humanitária”. “Humanitário”? - eles nem sabem o que é isso. Os marines – a tropa de choque imperial – dispensam apresentações. Quanto aos paraquedistas que ocuparam o aeroporto de Porto Príncipe, da 82ª Divisão Aerotransportada, cometeram algumas das maiores barbaridades no Iraque e no Afeganistão, só para citar o que é mais recente. A 82ª também ficou famosa por invadir Granada – além de aparecer no “Apocalipse Now”, no Vietnã, na cena do insano bombardeio ao som de Wagner.
Mais cínico ainda é chamar de “navios humanitários” a um porta-aviões nuclear, o Carl Vinson, que foi usado na invasão do Afeganistão; aos navios de assalto dos marines; e à frotilha composta por cruzador com mísseis, destróieres e barcos de suprimento. Também não podem ser considerados “humanitários” os vôos diários sobre o Haiti realizados por avião emissor de rádio, durante horas, em que o bondoso Merten ameaça encarcerar em Guantánamo aqueles haitianos que, movidos pelo desespero, se lançarem ao mar, em balsas, rumo a Miami. Ou o desembarque de paraquedistas nos escombros do palácio presidencial.
O chefe da Defesa Civil da Itália, Guido Bertolaso, que recentemente liderou o socorro às vítimas do terremoto que atingiu Áquila, traçou um retrato da intervenção dos EUA no Haiti neste terremoto. “É um show de força verdadeiramente poderoso, mas completamente fora de contato com a realidade. Eles não têm uma relação próxima com o território, eles certamente não têm uma relação com as organizações internacionais e os grupos de ajuda”, afirmou em entrevista à RAI (TV italiana).
No mesmo sentido, a diretora da Ong “Médicos Sem Fronteiras”, Françoise Saulnier, responsabilizou em entrevista à TV Reuters a ocupação militar dos EUA do aeroporto de Porto Príncipe, que bloqueou o tráfego à ajuda humanitária. “Perdemos três dias”, que criaram “um enorme problema de infecções e gangrenas, com amputações que agora são necessárias, enquanto poderíamos realmente ter poupado isso a essa gente”. “Você tem os primeiros três dias para tentar tirar as pessoas sob os edifícios, outros três para lhes dar assistência médica e cirúrgica”, afirmou Françoise. “Todo o resto - emergências, comida, abrigo, água - vem depois disso”, assinalou. Ela denunciou que “tudo foi misturado e a atenção urgente e vital ao povo foi adiada [devido à] logística militar, que é útil, mas não no terceiro dia, não no quarto dia, mas talvez no oitavo dia. Esta logística militar realmente congestionou o aeroporto e levou a esta má gestão”.
Então, a prioridade do Pentágono era a “segurança” – isto é, a ocupação -, e para levá-la a cabo não se melindrou em atropelar a ONU, a força de paz liderada pelo Brasil, as organizações internacionais, as equipes de resgate e os demais países. Enquanto os EUA enviaram paraquedistas para o palácio presidencial em ruínas, o Brasil organizou, diante do mesmo palácio, uma grande operação de distribuição de 22 mil litros de água e 10 toneladas de alimentos à multidão abrigada nas imediações. O comando brasileiro da força de paz compareceu à distribuição, e os caminhões com comida portavam as bandeiras do Haiti e do Brasil. (ver matéria ao lado).
Na Conferência em Montreal dessa segunda-feira dia 25, Canadá, por recursos para a reconstrução do Haiti, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, afirmou que “não podemos ver um desastre do tamanho que atingiu o Haiti, com a pobreza que existe no Haiti, e não fazer nada”. Ele informou que a ajuda do Brasil – empenhada direta ou indiretamente – já chega a US$ 230 milhões. Amorim disse, ainda, que é vital reconstruir os símbolos nacionais do Haiti. “Penso que isto é muito importante, de modo que o povo haitiano sinta também que não apenas estão recebendo comida e água, mas também recobrando sua autoestima”. Sobre os 20 mil soldados que os EUA despacharam para o Haiti, Amorim destacou que “uma da razões pela qual a Minustah é muito respeitada é porque ela restabeleceu a ordem mas não tem uma presença ostensiva, que pareça uma força de ocupação.” (A.P.)

EUA invadem o Haiti e dificultam chegada da ajuda humanitária

Editorial

Em 1911, depois do Citibank adquirir o Banco Nacional do Haiti - que também cumpria o papel de Tesouro - os EUA passaram a considerar o país uma colônia de segunda classe.
Em 1916, invadiram e ocuparam militarmente a nação para proteger os interesses do Citi e da Haitian American Sugar Co, ameaçados por uma rebelião popular.
Só saíram em 1934 por determinação do presidente Roosevelt, que nutria pouca simpatia pelas corporações monopolistas e seus interesses imperiais.
Voltaram alguns anos mais tarde, na década de 1950, dando integral apoio - salvo nos dois breves anos do governo Kennedy - a Duvalier, depois que este virou a casaca e implantou uma feroz ditadura que durou até 1986.
Em 1994, no auge da onda neoliberal, Washington apoiou Aristide para impor-lhe aqueles famosos “planos de ajuste” do FMI, que reservavam ao Haiti o papel de importador até de alimentos dos EUA em troca da implantação de unidades secundárias de produção de corporações como a Disney e a Levi’s.
O país, com 70% da população nas zonas rurais, perdeu a produção de arroz, teve desorganizada sua produção de açúcar, foi ocupado por ONGs e o comércio exterior ficou à mercê dos EUA, para onde são destinadas 72% das exportações.
Quando Aristide ensaiou resistir ao massacre, Bush financiou e armou bandos opositores para depor o presidente. Em seguida enviou os marines, que o prenderam em casa, em março de 2004, apesar dele haver sido eleito para o segundo mandato com 92% dos votos.
A ação da diplomacia brasileira, conjugada com a francesa e da maioria das nações do mundo, impedia que essa nova invasão se consolidasse, tendo sido criada uma força de paz da ONU comandada pelo Brasil com a missão de pacificar o país.
Isolados, os EUA tiveram que se retirar três meses depois, mas não engoliram a derrota.
Agora, aproveitando-se do caos provocado pelo trágico terremoto, o Pentágono força a entrada de 10 mil soldados - dois mil a mais do que toda a força de paz da ONU reunida, constituída por 36 países.
A situação é delicada, porque Obama gastou todo o gás na campanha e no governo, desde o discurso de posse, tem sido um maria-vai-com-as-outras.
Mas, com paciência, nós vamos mandar a canalha de volta para casa outra vez e ajudar o bravo povo do Haiti a se livrar desse encosto para que possa reconstruir o mais breve possível o seu Estado nacional.

Publicado na Hora do Povo, edições 2.836, 2.834, 2.835 e 2.831

05.02.10

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